domingo, dezembro 18, 2005

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Poucos moedores na boca. A pele queimada pelo sol escaldante. As poucas roupas que cobrem o corpo esburacadas pelo tempo. O olhar triste, sem vislumbre para além do horizonte. A mão estendida. " Ôoo sinhô, me dá uma moeda..."
Os vidros fechados respondem. Os rostos são manejados para outra direção.
A mulher acostumada olha para o além. O que terá amanhã para comer?
Uma moeda, sinhô. Uma moeda para encher o estomago. Uma moeda para apagar por alguns segundos a marginalização 'a que foi fadada. Uma moeda para ser humano de novo.

Diante daquela pobreza, daqueles joelhos marcados pela dor, do rosto queimado pelo sol, das roupas emputrecidas, virei o rosto.
A minha pureza - limpeza- orgulho não suportava toda sujeira - miséria-humilhação do ser humano sentado naquilo que antes de ser uma calçada esburacada,era seu lar.
Desviei o olhar para o pior pesadelo. Desviei o olhar para o Real. Desviei o olhar de algo que eu sou responsavel. Desviei o olhar para não estender a mão. Desviei o olhar para poder seguir minha vida indiferentemente, como se nada tivesse acontecido.
Mal sabia que aquela cena já fazia parte de mim.

(palavras gravadas num papel enqto o onibus lotado sacolejava)

2 Comments:

Blogger Volmir said...

o que sou e o que somos??? nossa carga de responsabilidade? as ulisões vistas em sonho não mais nos afeta. Podemos ter desviado o olhar, mas o mérito está na sensação de estarmos acordados e ver que a dormencia do mundo não faz parte de nós. Nós vemos a fome e vemos a necessidade!

sinta-se a vontade de voltar no meu blog qdo quiser...

bjão...

volmir

dezembro 20, 2005 5:10 AM  
Anonymous Anônimo said...

Minha cara foucaultiana, como sempre poética!!!! rsrs
Comentário bem pseudointelectual jornotiano esse né? hahahha
Depois eu faço um comentário mais SUM!!!
beijos
Van

dezembro 23, 2005 8:48 PM  

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