Naquele dia redescobrira que de fato a vida é bela. Era grata por ser amiga-filha-serva do Criador. Sorrindo deixou as pálpebras penderem e encontrou o templo dos sonhos.
Horas depois, quando todo o resto do mundo dormia, despertou com uma dor sufocante contorcendo as entranhas. Fechou os olhos, fingindo indiferença. Mas, as vísceras gritavam.
Lentamente acendeu a luz do quarto. E a imagem do espelho emoldurado por conchinhas da praia do verão passado, assustou-a. A face, antes pardamente saudavel, tomara as cores pálidas de uma folha de papel. Os lábios brancos em cor exalavam agonia.
Sozinha tentou livrar-se da contorção muscular. Em vão. Toda vida do corpo parecia doloridamente querer esvair-se pelo umbigo. Com voz sôfrega gritou o pai. O herói que sempre a salvava dos pesadelos quando pequenininha.
Ele, desacostumado com choros noturnos - dada a quase madureza dos filhos -, acordou num sobressalto, monossilando "quefoi? que foi?" ao ritmo do bater rápido do coração.
Encontrou a filha de cachos desregrados em corpo de vivo-morto no corredor. Atentamente, o pai-herói seguiu as orientações da menina-moça dolorida.
E, ela pode então adormecer grata por não estar na metrópole em uma hora tão tão tão.
Dormiu feliz por não ter crescido tanto a ponto de não depender mais do cuidado e cafunés dos pais.

P.S. : Há algum tempo li que recém nascidos quando submetidos a dores, geralmente sofrem mais com estas quando se tornam gente grande. A protagonista nasceu prematura. Pequenininha. Pequenininha. A mãe conta que a segurava apenas com uma mão. Graças a finura dos braços, injetavam soro na veia da cabecinha. Com dois meses de vida sofreu uma cirurgia. Sim. Foi uma nenê chorona. Para salvá-la da morte, os médicos aplicaram dores menores. Por isso hoje ela é hiperbólicamente dolorida. Até para escrever...






