sábado, fevereiro 18, 2006

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Os personagens não nascem de um corpo materno como os seres vivos, mas de uma situação, uma frase, uma metáfora que contém em embrião uma possibilidade humana fundamental que o autor imagina não ter sido ainda descoberta ou sobre a qual nada de essencial ainda foi dito”
(Milan Kundera, em “A insustentável Leveza do Ser” – página 251)



Meu nome é talita. Ex viciada no arquétipo perfeito de redação perfeita para ingressar num mundinho para poucos não perfeitos.Introdução. Argumentação. Conclusão. Citações. Muita pompa e nenhuma alma.O romance com as palavras fadado ao marasmo.

Mas, aquele dia de greve, brisas e ipês (do post anterior) contemplou a desintoxicação. A redescoberta do prazer da escrita. O nascimento da talita-personagem-autora deste blog.

Depois do amarelo feito em flor.

Cheiros, cores, formas, sons. O vivivel em meus poros, na corrente sanguínea. Sendo expelidos pelos dedos destros. Dedos guias de uma caneta BIC no desenho de letras gordinhas de contentamento. No desenho da talita sensível ao simples das coisas.

E assim, os instantes comuns tatuados na memória poética sob holofotes. A talita vinda de um ipê bailando nas palavras desta esfera azul que rodopia pela Via Láctea.

sábado, fevereiro 11, 2006

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E, era um dia desses de greve estudantil. Dia nem de sol. Nem de chuva. Dia de brisa.
Ela. Menininha sonhadora despertara com sede de revolução. Vontade de fazer do mundo um lugar mais justo. Bonitinho assim.
Embalada pelo sonho universal, rumou ao lugar onde, no dia anterior, piquetes, megafones e palavras de ordem prometiam fim de reinados de tucanos, vitória da democracia, e, diga-se de passagem, uma certa coerção ideológica.
Mas, para sua surpresa, naquele dia de brisa, o reduto dos intelectuais jazia num silêncio perturbador. Poucos pés perambulavam. Todos sem rumo certo. Estariam os outros acampados em frente ao palácio do primeiro homem do estado? Até parece. Bons desenhos passavam na TV. Mas, não importa. As portas lacradas conspiravam contra todos traidores.
Já sem meios para a operação “mundo melhor”, a menina seguiu sem caminhos. Com nenhum motivo para correr contra os ponteiros, deixou que seus pés aproveitassem a delicadeza e despreocupação. Não corria. Apenas vagava.
Foi aí que viu.
Viu amarelos ipês em frente ao departamento daqueles que se debruçam sobre o passado. Embriagada de estupefação não conseguia pensar em nada além do amarelo feito em flor. Seus neurônios admirados ordenavam pés e olhos a marchar firmes na esteira da contemplação. Impediam que qualquer ruído, lembrança ou filosofia afugentasse a beleza secreta do segundo.
E, enquanto despreocupadamente levava as folhas do Instituto Butantã ao chão, a brisa sussurrava o quanto a menina perdera nos últimos anos.
Absorta em pensamentos, problemas, sonhos, planos, compromissos, ela não ouvira o canto dos passarinhos. Tampouco o dueto dos balanços misturados aos risos das crianças. Não sentira o perfume das flores. Não vira bromélias escorrendo por entre as arvores. Nem ipês amarelos brindando a FFLCH.
Não exalara a preciosidade dos segundos cuidadosamente planejados por Deus. Só para vê-la sorrir.
E, a menina com sonhos de mudar o mundo, revolucionou o seu olhar. De certa forma, o seu mundo.